quarta-feira, 15 de abril de 2020

Isolamento


estamos todos ilhados
impedidos de sair
ainda não por armas
mas o vírus está aí

contamina aqueles que se arriscam
e renega quem se isolou
pune os expostos
aterroriza quem sobrou

mata muitos poucos dentre os contaminados
mata muitos poucos contaminados
mata muitos
mata muito
mata

se fosse uma vítima
seria uma perda lastimável
sendo milhares de mortos
é apenas mais uma catástrofe contábil

estamos todos ilhados
distantes uns dos outros
alguns com tantos conectados
eu salvo por abraços poucos

este momento exige olhos abertos
para que possamos enxergar nosso vizinho
mesmo que não possamos ficar perto
ninguém precisa passar por isso sozinho

não adianta querer salvar o mundo
e não fazer nada para ajudar
quem está próximo precisando
de uma mão para se levantar

não é hora de enriquecer
é hora de compartilhar
o que fará o novo dia amanhecer
é a nossa capacidade de amar

ninguém tem tão pouco que não possa dividir
uma roupa, um tesouro ou um pedaço de pão
se não tiver dinheiro, vestes ou comida
compartilhe ao menos um pouco de sua atenção

quando possível, ofereça ajuda
muitas vezes isso dá medo
aceitá-la, mais ainda

deixe o orgulho de lado
tenha coragem para ser humilde
saiba que esta pandemia uma hora finda

e com ela também findarão os temores antigos
os desejos, metas e objetivos não atingidos
o que restará serão as pontes firmadas
e as memórias de luz de uma crise superada

faça o que está ao seu alcance
para que quando isso acabar
tenha a cabeça leve no travesseiro
e o espírito satisfeito
por não ter deixado de ajudar.

- Lucas Vidal

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Gota de chuva

A gota de chuva vem do céu
E não sabe onde vai cair
Desgarra da nuvem cheia
E, pelo ar, começa a fluir

Sem pretensão, nem desejos
O que vier será bom
Para ela não faz diferença
Pois apenas segue seu próprio som

Mesmo que não seja tão bem recebida
Onde ela cai, leva vida

Quando toca a semente
A vida se move vagarosamente pelo interior
Quanto cai no metal
Faz mover graciosamente todo o seu exterior

Faz a janela dançar no seu ritmo
E o muro ficar umedecido
Com a gota fluindo entre seus fragmentos
Nasce algo novo após este belo momento

Então, seja como a gota de chuva: constante fonte de vida aonde for
Não espere por nada, não tenha nenhuma missão
Se isso não for possível, simplesmente mova-se dançando
E torne o seu caminho uma verdadeira celebração

terça-feira, 31 de março de 2020

Estou

Onde quer que eu esteja

Aconteça o que acontecer comigo

Eu estarei bem



Tudo que vejo é novidade

Tudo que sinto é passageiro

Exceto a paz que se mantém



De peito aberto para a vida

Sem nenhuma missão a ser cumprida

Sigo sem depender de ninguém



Sem dogmas ou ideologias

Não obedeço ordens ou imposições

Faço apenas o que me convém



Sou indiferente àquilo sobre o qual não tenho controle

E entrego-me à incerteza do que virá

Apenas vivo intensamente o presente momento



Me distancio do “deveria ser”

Mando para longe o “e se”

E cada vez mais aceito sem julgamento



Sou rio em constante fluxo e mutação

Que morre e ressuscita a cada segundo

Entre os sons eu sou o silêncio



O vácuo que envolve e repele

Indescritível pelas palavras

Incompreensível pelo pensamento



Um ser sem rótulos

Um ser vivo

Um ser



Apenas vida acontecendo

Apenas vida

Um viver



Nada que seus olhos possam captar

Nem que suas mãos possam tocar

Ou a sua mente compreender



Ela é racional demais

E somente entende o que vem das palavras

Aquilo que se pode descrever



Ela gosta de definir

De dizer o que é ou não é

Mas para todas as definições apenas estou



Estou homem

Estou jovem

Estou vivo

Estou morte



Estou feio

Estou belo

Estou mau

Estou bom



Estou selvagem

Estou civilizado

Estou certo

Estou errado



Escolha a palavra que for

Ela descreverá apenas o que já passou

Apenas se conseguir realmente estar presente

Poderás sentir o que realmente sou



Neste momento seremos iguais

Seremos apenas um

Não haverá mais distância

Ou separação em lugar algum



Tudo estará em harmonia

Quando o eu e o outro deixarem de existir

Dos seres vivos às pedras abandonadas na praia

Tudo você poderá contemplar e realmente sentir



Então compreenderás que o Deus que cultuavas

Nunca esteve distante ou fora de ti

E que a onipresença por tantas vezes duvidada

É a razão e o destino do teu existir

terça-feira, 24 de março de 2020

Última viagem

Cada viagem que fazemos é a nossa última viagem.
E se não for a última, não será mais igual.
Os companheiros de viagem não estarão mais aqui;
Se estiverem, não serão mais os mesmos.
Pode-se repetir o barco, o trajeto, os tripulantes, mas a viagem não será mais a mesma.
O rio pode ser o mesmo no nome, mas a água que o compõe não será mais a mesma.
Da mesma forma, os tripulantes não serão mais os mesmos.
Podem até ter os mesmos problemas, os mesmos questionamentos, as mesmas reflexões, mas não serão mais os mesmos.
Durante a mesma viagem, inclusive, não serão mais iguais.
Cada trajeto concluído, cada momento vivido e o rio das nossas vidas já não é mais igual.
Amadurecemos a cada segundo e passamos a lidar de forma diferente com cada novo desafio.
Por isso, digo: cada viagem que fazemos é a nossa última viagem.
Não porque não viajaremos mais, mas porque não seremos mais os mesmos após a viagem feita.
Morreremos juntos com a viagem e renasceremos após o término dela, para iniciarmos uma nova viagem e reiniciarmos o ciclo até a derradeira viagem e a nossa última morte em vida, a que nos levará a uma nova consciência ou à total falta dela.

Meu tesouro

Enquanto muitos lutam por ouro, o meu maior tesouro
Está no pôr do Sol
Lá o brilho é outro: as nuvens num tom laranja fosco
Contrastam com o amarelado céu

E conforme o tempo vai passando
O Sol vai se despedindo
Todo contraste está aos poucos acabando
O dia logo estará dormindo

Mas antes de fechar os olhos
O Sol fica envergonhado
Isso é tão perceptível
Que o céu fica rosado

Na cidade não se vê
Tudo que há aqui
Essa beleza em forma de cores
Que a luz artificial ofusca e faz sumir