quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Gente invisível

eles andam em silêncio sobre o asfalto

carregando os seus pertences em sacos pretos

esperando um dia também serem colocados dentro de um

quando chegar o seu momento derradeiro

eles são invisíveis, mesmo tendo cor

são excluídos e ignorados

desprezados e abandonados

por toda essa "gente de bem" cheia de amor

eles dormem ao relento

passam frio, fome, calor

mas a indiferença que sofrem a todo momento

é aquilo que lhes traz mais dor

nem ao menos objetificados eles são

pois não têm utilidade a esse sistema tão cruel

são considerados algo a ser evitado

um alimento indigesto com gosto de fel

poluem a paisagem com a sua presença

trazendo constrangimento a quem os observa

fazendo entrar em choque as suas crenças

expondo toda a sua hipocrisia

enquanto você também os despreza


domingo, 15 de novembro de 2020

Selva de pedras

selva de pedras
céu nublado
ruas e ruas
de puro asfalto
a maior das metrópoles
tu és São Paulo
um pouco de tudo
bem misturado
quantas cores há em tuas ruas?
quanto cinza no teu céu?
quantos amores perdidos?
quanta vida debaixo do véu?
trânsito intenso
cigarros estragados
pelas vidas tragadas
dos que vêm de baixo
realidades paralelas
sobre o mesmo bueiro
não importa quem é retardatário
ou quem foi que chegou primeiro
no final das contas
todos nós seremos objeto de trabalho
do mesmo coveiro
e a nossa morada também será coberta
por um manto de concreto
aí finalmente seremos iguais
estaremos bem perto
debaixo de tantos prédios
longe de tanta desigualdade
debaixo das quebradas
fundidos com o coração de pedra
desta metrópole selvagem

sábado, 10 de outubro de 2020

Fotos antigas

hoje, olhei algumas fotos antigas
do tempo em que sorríamos juntos
de quando a vida era mais simples
e quase não tínhamos mal-entendidos
naquela época, somente queríamos estar perto
o máximo de tempo possível
pois nada era melhor que isso
mas nos perdemos no decorrer do tempo
nos afastamos do nosso caminho
com as mãos separadas, até tentamos
mas acabamos seguindo sozinhos
e apesar da leveza que chegou em nossas vidas
ainda há um "e se" que traz uma melancolia
reabre algumas feridas não cicatrizadas
expõe nossas sombras quando olhamos no espelho
faz questionar se algum dia reviveremos 
o que foi tão intenso e verdadeiro
aquilo que ousamos definir 
e batizamos de amor
talvez aí tenhamos começado a diminuir
a qualidade do seu sabor
pois o colocamos em uma caixa na qual não cabia
e essa limitação que criamos
foi nos envenenando dia a dia
a liberdade foi sufocada
assim como o tal amor
pois um não vive sem o outro
ambos perdem o seu valor
hoje, o que nos resta é aceitar
que precisamos continuar
de mãos desatadas
cada um apenas e exclusivamente
com o seu próprio caminhar

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Medo

eu não controlo o próximo passo

mas escolho a direção

não tenho medo da morte

mas de viver em vão

de passar por esta experiência

sem sentir o seu real sabor

de falar e agir com indiferença

sem sentir e demonstrar o meu amor

temo também me podar

antes de dar os frutos para os quais nasci

e, na hora de morrer, olhar para trás

e perceber que eu não vivi

domingo, 13 de setembro de 2020

O salto

o sol, as nuvens
o vento, a altitude
a imensidão azul
o mergulho no infinito
o voo imprevisível
o coração a mil
a felicidade estampada na cara
de quem cruza uma nova linha
e vive de forma a sugar
cada gota do tutano da vida