sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Noite quente lá fora, inverno aqui dentro

nas noites mais sombrias
quando a esperança se vai
o álcool entra rapidamente
o choro simplesmente sai
as lágrimas vêm quando têm que vir
e botam para fora tudo aquilo
que não damos conta de sentir
toda a dor acumulada
que insiste em transbordar
todos os sentimentos rejeitados
que fingimos não notar
como um raio vindo do céu
o choro flui ladeira abaixo
molhando a camisa
exorcizando as nossas vidas
limpando e purificando
os corações feridos
os caminhos partidos
e todo o futuro ainda não vivido
levando embora a esperança
de uma profunda e real conexão
colocando fim à história
de encontrar complemento
para o tão solitário coração
e assim seguimos adiante
sem certezas sobre o próximo passo
confusos e perdidos
totalmente carentes
em busca de ao menos um simples abraço

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sinto muito

sinto a confiança de que tudo dará certo

sinto a certeza de que estou cada vez mais perto

sinto segurança em meus passos já dados

sinto gratidão pelos caminhos trilhados

sinto a esperança de que não precisarei mais esperar

sinto calma em cada novo respirar

sinto a curiosidade de um turista ao cruzar cada esquina

sinto a criatividade de uma criança a cada novo olhar

sinto o amor fluir em meu ser

sinto a minha humanidade florescer

sinto muita conexão com o todo

sinto que não estarei aqui de novo

sinto que posso morrer a cada instante

sinto que por isso vivo a vida como um eterno amante

sinto a liberdade de quem se jogou no abismo

sinto felicidade por estar sempre comigo

sinto que tempo não é dinheiro

é vida e preciso aproveitá-lo por inteiro

sinto que só há harmonia quando se é de fato verdadeiro

sinto que te dou um abraço com a poesia que agora escrevo

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Gente invisível

eles andam em silêncio sobre o asfalto

carregando os seus pertences em sacos pretos

esperando um dia também serem colocados dentro de um

quando chegar o seu momento derradeiro

eles são invisíveis, mesmo tendo cor

são excluídos e ignorados

desprezados e abandonados

por toda essa "gente de bem" cheia de amor

eles dormem ao relento

passam frio, fome, calor

mas a indiferença que sofrem a todo momento

é aquilo que lhes traz mais dor

nem ao menos objetificados eles são

pois não têm utilidade a esse sistema tão cruel

são considerados algo a ser evitado

um alimento indigesto com gosto de fel

poluem a paisagem com a sua presença

trazendo constrangimento a quem os observa

fazendo entrar em choque as suas crenças

expondo toda a sua hipocrisia

enquanto você também os despreza


domingo, 15 de novembro de 2020

Selva de pedras

selva de pedras
céu nublado
ruas e ruas
de puro asfalto
a maior das metrópoles
tu és São Paulo
um pouco de tudo
bem misturado
quantas cores há em tuas ruas?
quanto cinza no teu céu?
quantos amores perdidos?
quanta vida debaixo do véu?
trânsito intenso
cigarros estragados
pelas vidas tragadas
dos que vêm de baixo
realidades paralelas
sobre o mesmo bueiro
não importa quem é retardatário
ou quem foi que chegou primeiro
no final das contas
todos nós seremos objeto de trabalho
do mesmo coveiro
e a nossa morada também será coberta
por um manto de concreto
aí finalmente seremos iguais
estaremos bem perto
debaixo de tantos prédios
longe de tanta desigualdade
debaixo das quebradas
fundidos com o coração de pedra
desta metrópole selvagem

sábado, 10 de outubro de 2020

Fotos antigas

hoje, olhei algumas fotos antigas
do tempo em que sorríamos juntos
de quando a vida era mais simples
e quase não tínhamos mal-entendidos
naquela época, somente queríamos estar perto
o máximo de tempo possível
pois nada era melhor que isso
mas nos perdemos no decorrer do tempo
nos afastamos do nosso caminho
com as mãos separadas, até tentamos
mas acabamos seguindo sozinhos
e apesar da leveza que chegou em nossas vidas
ainda há um "e se" que traz uma melancolia
reabre algumas feridas não cicatrizadas
expõe nossas sombras quando olhamos no espelho
faz questionar se algum dia reviveremos 
o que foi tão intenso e verdadeiro
aquilo que ousamos definir 
e batizamos de amor
talvez aí tenhamos começado a diminuir
a qualidade do seu sabor
pois o colocamos em uma caixa na qual não cabia
e essa limitação que criamos
foi nos envenenando dia a dia
a liberdade foi sufocada
assim como o tal amor
pois um não vive sem o outro
ambos perdem o seu valor
hoje, o que nos resta é aceitar
que precisamos continuar
de mãos desatadas
cada um apenas e exclusivamente
com o seu próprio caminhar