quarta-feira, 13 de maio de 2020

Fé e esperança

a guerra acabou, mas não se ouviram as trombetas da vitória
nem mesmo qualquer outra canção usada para comemorar
estávamos todos atolados em meio aos corpos caídos no campo de batalha
quando os poetas, com suas poesias aladas, vieram nos salvar
muitos ficaram em choque e começaram a chorar
outros até esboçaram um sorriso, mas demoraram a acreditar
eu simplesmente estiquei meus braços para cima como uma pequena criança
sentia apenas uma mistura de gratidão, alegria e esperança
uma bela poesia segurou as minhas mãos
e me conduziu em um voo alto sobre o oceano
quando me soltou, eu estava em um local calmo e seguro
e me sentindo ainda mais humano
peguei uma caneta e comecei a escrever
em uma folha de papel em branco
dos meus rabiscos, uma nova poesia surgiu
e começou a voar
disse que o seu nome era Fé e esperança
e que tinha que ao campo de batalhas imediatamente retornar
pois ainda haviam muitas almas tristes
e vários corações feridos para ela acalentar
despediu-se então com um belo sorriso
e prometeu um dia vir me visitar
trazendo vários corações curados consigo
para pulsarmos em uma só frequênciam
e juntos podermos festejar

domingo, 10 de maio de 2020

Nossa vitória

o tempo demorou

mas passou

o isolamento terminou

a pandemia chegou ao fim

agora já podemos sair 

e respirar sem máscaras

simplesmente andar por aí

ver o pôr do Sol no rio e reencher as praças

as famílias se reencontram

os amigos finalmente podem se abraçar

a rua mais uma vez ganha vida

com a música ao vivo do bar

as escolas reabrem

e a rotina aos poucos retorna ao normal

os logistas estão em festa

pois o consumismo reapareceu no final

parece que nada aprendemos

com o que aconteceu

rapidamente esquecemos

do nosso povo que morreu

da imensa desigualdade

que matou tanta gente

aquela a que fechamos os olhos

antes de seguirmos em frente

não permita que tudo tenha sido em vão

juntos podemos mudar esta história

olhar para a tragédia e aprender uma lição

e fazer dela a nossa vitória

a partir daí podemos mudar

e ser um povo diferente

pessoas mais humanas que sabem compartilhar

que se importam e cuidam de verdade da sua própria gente

Essa pandemia

dias e dias
essa pandemia...
dia sim, dia não
ela nos traga e cospe no chão
renascemos e lutamos
voltamos a cair
pelo tédio, pela tristeza
pela vontade de sair
dias e mais dias
essa pandemia
corta as nossas asas
nos prende em uma gaiola
ainda quer nos ver cantar
enquanto isso, observamos
olhamos para fora
sonhamos em voar
dias e menos dias
essa pandemia
uma hora termina
seja com o tempo
o isolamento
ou a tão sonhada vacina
dias e nossos dias
essa pandemia
nos afastou
amedrontou
interconectou
e, como deu, sobrevivemos
com base na fé
na coragem
e em bons pensamentos
dias que nem sabemos mais
essa pandemia
de cura tardia
que tirou a nossa paz

domingo, 26 de abril de 2020

Manaus Coronada

oh Manaus, querida Manaus

onde encontram-se as minhas raízes

mãe terra que recebeu-me de braços abertos

e encheu-me de dias ensolarados e felizes

rainha repleta de belezas e contradições

alvo de rasos preconceitos e profundas paixões

tão pobre e tão rica, artesã industrializada

tão chuvosa e quente, distante e conectada

distante do coração do Brasil, conectada à sua gente

tão acolhedora aos que chegam e ingrata aos que partem

tão mansa e tão feroz, pudica e indolente

agora, encontra-se doente

teu povo adoeceu e começou a morrer

falta espaço em tua tão vasta terra

para enterrar os corpos de todos os falecidos

faltam também médicos e leitos para acolher os inúmeros adoecidos

interceda por nós, oh mãe Manaó

com a tua sábia medicina secular

protege o teu tão ávido povo e ensina-o a esperar

embala teus filhos na rede e canta-lhes uma canção de ninar

a tua doce voz eles hão de ouvir

e, quem sabe assim, parem de se arriscar e sair

é tempo de quietude e isolamento

de fechar os olhos e olhar para dentro

mas logo este momento passará

pois nada para sempre dura

então, minha terra amada

finalmente receberás a tão aguardada cura


@metamorfose.revolucionante


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Acendam as fogueiras


a tempestade está chegando
não há nada a se fazer
a tristeza do seu pranto
nos fará arrepender

tínhamos tempo sobrando
por que demoramos para agir?
por que duvidamos tanto
sem saber para onde ir?

os hospitais que deveríamos ter montado
nos fazem falta agora
que estamos com tantos leitos ocupados
e sem os médicos que mandamos embora

ontem, o ministro foi trocado
hoje, continuamos a morrer
amanhã, caçaremos os culpados
pelo que não fomos capazes de fazer

corpos e mais corpos se amontoam
em breve não haverá mais covas
acenderemos então as fogueiras
para queimarmos todas as provas

as futuras gerações não precisam saber
o que seus pais e avós permitiram acontecer
porque entraram em uma guerra conceitual
na qual discutia-se interminavelmente
quem era do bem e quem era do mal

enquanto discutiam, assistiam congelados
os muros de seu frágil país serem tomados
a mudança não foi inesperada
mas veio lenta, a doses homeopáticas

dia a dia, foram bombardeados de informações
muitas falsas, outras adulteradas
em resumo, perderam a noção

não sabiam mais em quem confiar
tudo e todos os queriam enganar
voltaram no tempo uns quarenta anos ou mais
à época em que a guerra fria era sinônimo de paz

nós contra eles
o bem contra o mal
tantos bons cristãos
imersos em uma fúria infernal

nossos descendentes não precisam saber
o quão carentes e ingênuos fomos
por acreditarmos cegamente nos falsos heróis
que criamos e alimentamos a cada amanhecer

cada vez que o governante anterior
se mostrava um pouco como nós
o rejeitávamos vigorosamente
e elegíamos um novo salvador

um novo messias a se seguir
e foram tantos
mas não aprendemos
foi o erro que amamos repetir

FHC, Lula, Dilma e PT
Aécio, Impeachment e Moro
por fim, veio o Bolsonaro
“o mais honesto de todos”

mansos e calados como boas ovelhas
caminhamos pacificamente sem perceber
que esta divisão era tudo que eles queriam
e precisavam para conseguir nos abater

alguns de nós gritaram e protestaram
ouviram-se muitos sons de panela batendo
algo incrível, simplesmente hilário
barulho inócuo frente ao que estava acontecendo

quando o vírus chegou
pouco a pouco começamos a cair
ele demorou, mas um dia passou
porém, não tivemos motivos para voltar a sorrir

tivemos de lidar com a crise econômica
e os inúmeros desempregados
vários e vários adoecidos pelo confinamento
entre tantos outros desesperados

o desemprego trouxe também violência
e grande período de escassez
que nossos filhos e netos nunca saibam
de tudo aquilo que a gente não fez

- Lucas Vidal